Treinador fisico

Entrevista com o preparador físico DB Surf Performance

Como já anunciámos este Blog destina-se a promover as visões e o trabalho de profissionais que trabalham no mercado do Surf Português que podem ajudar a melhorar também a vossa prática do Surf.

Na entrevista anterior demos voz ao Treinador Diogo da Enjoy Surf Project.

Hoje é a vez do Preparador Físico Duarte da DB Surf Performance nos dar a conhecer o seu projeto e a importância do seu trabalho para um desenvolvimento mais saudável como surfista.

Conversa com Duarte de DB Surf Performance

Primeiro conta-nos um bocadinho como surgiu o teu projeto, o teu percurso no surf e a decisão de investires na preparação física de surfistas?

 

Vou começar pelo meu percurso no surf. O meu primeiro contacto com o surf foi quando tinha 11 anos. Uma prima minha estava a ter aulas de surf na Costa da Caparica (não me lembro bem em que praia foi, mas foi nos pontões) e eu estava na areia, com o meu irmão gémeo, a brincar ou a vê-la divertir-se um pouco mais que nós (risos). Depois acho que nos perguntaram se queríamos experimentar. Sorriso na cara, short vestido e lá fomos nós para as ondas, ou espumas (risos). Algumas espumas com softboard, outras com shortboard e a alegria era visível. Depois…não houve a possibilidade/apoio para dar continuidade àquela experiência.

Anos mais tarde decidi seguir uma profissão que reunisse exercício e saúde. E foi isso que fiz, tendo escolhido um curso que tinha entre as componentes pedagógicas a disciplina de surf. Apesar da mesma só estar no 2º ano lectivo, mal entrei para a faculdade decidi arranjar todo o material e voltar de novo ao mar como auto-didacta. No último ano escolhi como cadeiras de especialidade o treino personalizado e o surf, tendo terminado a minha formação académica em 2008. Sabia que queria juntar essas duas áreas, mas ao entrar no mercado de trabalho, e ainda com pouca experiência, optei por seguir um caminho que estava “mais perto” de mim e que me poderia dar os meus primeiros ordenados (isso é sempre aliciante para um jovem acabado de sair da faculdade e que quer pôr em prática o seu curso), acabando por me dedicar durante alguns anos à área do Fitness.

O projecto ficou sempre “na gaveta” e ao mudar-me para a Ericeira há cerca de 3 anos por causa da minha namorada, e com o apoio dela, achei que seria a altura certa para tirar o projecto da fase de intenção para a fase de acção. Com mais conhecimento e ferramentas adquiridas na área da preparação física e bem-estar, foi o momento ideal para me dedicar a ele, desenvolver algo do zero e contribuir para a comunidade de surfistas. Criei então a minha página de instagram e facebook – DB Surf Performance. DB são as minhas iniciais Duarte Bairrada (risos). O objectivo foi desde sempre partilhar conhecimento com os surfistas sobre como poderiam tornar os seus corpos mais móveis, fortes, prevenir lesões, etc. Acredito genuinamente, e sempre foi esse o meu posicionamento, que a informação é mais valiosa quando partilhada. Tendo este conhecimento queria, e continuo a querer, que todos os surfistas possam extrair do seu corpo todo o potencial que têm para surfar mais, melhor e com menor risco de sofrer lesões. De momento estou a trabalhar com alguns atletas como o João Guedes, o Luís Perloiro, o António Laureano.

 

surf e movimentos

Treino de Surf: Para quem? Quando?

Primeiro é importante percebermos que o nosso corpo está desenhado para se mexer. Se não o fizermos, corremos o risco de perder o “controlo” sobre o mesmo. O movimento é essencial para a nossa qualidade vida. Sem ser demasiado técnico, um exemplo prático é o passarmos horas e horas (mal) sentados, surgir-nos um sintoma de dor (em qualquer parte do nosso corpo), e associarmos rapidamente essa dor a tudo menos ao facto de não nos andarmos a mexer com qualidade. Muitos dos problemas físicos que os surfistas apresentam são muitas vezes problemas de movimento. O que quero dizer com isto é que uma dor localizada pode ser provocada por um corpo que não está equilibrado e não apenas por algo que se passe com essa zona em particular.

Há uma frase que acho interessante de um médico quiroprático que diz o seguinte: “mexe-te mais, com mais frequência, de mais maneiras, em mais ambientes”. Convido a todos os leitores a reflectirem sobre a mesma…

 

Posto isto, PARA QUEM é o treino ou quem deve treinar? O treino é para todos. Todos devem treinar. Pelo que referi anteriormente, primeiro é importante que todos os surfistas olhem para o seu corpo e percebam se lhe estão a dar movimento suficiente. Movimento de qualidade. Depois, é essencial que cada surfista tenha um treino adaptado às suas necessidades. Porquê? Um dos princípios do treino é a individualidade. Sendo nós seres únicos, cada um de nós é diferene do outro, mesmo que tenhamos um ADN semelhante, todos irão beneficiar de um treino adapatado às suas necessidades, objectivos, constrangimentos, etc.

QUANDO devo introduzir o treino ou quando devo treinar? Vamos pensar em conjunto…quando ou quantas vezes devemos fazer a nossa higiene? Todos os dias? Dia sim, dia não? Um dos meus objectivos é que o surfista pense no treino como uma necessidade fisiológica. O treino irá ser benéfico tanto para a melhoria das qualidades físicas, como das psicológicas.

 

Qual a diferença entre um alteta de surf treinar em grupo ou de forma individual?

Uns preferem treinar em grupo, outros sozinhos com o seu preparador físico. A sugestão que faço é que se puderem passem pelo dois processos e percebam por vocês as diferenças. É importante perceber que um treino em grupo não poderá ter a individualidade nem chegar às necessidades de cada um. Se o foco for diversão, ambos os modelos são válidos. Se o foco for extrair todo o potencial de um corpo, então a dinâmica individual será mais aconselhada. Não significa isto que, por exemplo, trabalhar em dupla não dê resultado. É uma estratégia interessante que pode ajudar no aumento do compromisso, dá espaço, se necessário, para criar alguma individualidade e pode ainda aliviar o investimento financeiro.

 

preparaçao para altas ondas
O foco do João Guedes são as ondas grandes

Qual a importância de ter preparador físico para atingir resultados ao longo prazo?

Acredito em relações duradouras. Quando nos empenhamos num processo e damos tudo de nós, tiramos o melhor do mesmo. O mesmo se passa com o treino. Quanto mais a equipa se vai conhecendo, numa relação onde os valores e visão estão alinhados, mais sólido será o resultado. Se mudar de treinador com regularidade, não tenho tempo de construir uma relação sólida e ver os resultados dessa sinergia. Claro que se o atleta perceber que algo está menos bem, deve corrigir de imediato esse “algo” ou partir para outra sinergia.

 

Quanto tempo aconselhas ter preparador físico para atingir resultados a longo prazo?

Diria que um treinador poderá ser para a vida, podendo seguir o atleta enquanto ele compete e mesmo após retirar-se da competição. Um atleta deve, em primeiro lugar, ser responsável pelos seus actos. Pode ter os melhores profissionais ao seu lado, mas se não aproveitar a ajuda, o resultado pode não condizer com os objectivos traçados. É preciso muito trabalho e empenho.

Hoje em dia os surfistas de alta competição têm à sua volta equipas multidisciplinares que os ajudam a criar estratégias rumo aos seus objectivos. Equipas que estão atentas ao seu bem-estar geral, às suas preocupações e medos, que estão constantemente em contacto com eles, que os ajudam a manter no “caminho certo”. Verdadeiros grupos de suporte para o atleta.

 

Como continuar o desenvolvimento da preparação física após o acompanhamento de um preparador físico de surf? Como identificar que é necessário recorrer novamente a um preparador?

A prescrição de treino direcionada para um atleta passa pela criação de um plano que recorre a métodos e modelos de treino e que têm uma razão associada a eles. Uma vez mais, não há receitas pois somos todos diferentes.

Quero dizer com isto que, qualquer que seja a razão que leve o atleta a deixar de treinar, ele deverá continuar a procurar manter-se activo e aderir a práticas de movimento ou exercício que estimulem o seu corpo de uma forma integrada. Nenhum motivo, a não ser uma lesão traumática que impossibilite o movimento, deve levar o atleta de surf a abandonar a sua preparação física. Se o fizer, estará a abandonar-se a si próprio. O que deseja o surfista? Estar no seu melhor e evitar lesões, certo?

 

 

O preparador físico é importante também para a motivação ou atua mais numa vertente técnica?

Se o preparador físico tiver competências para isso, poderá ir para além da vertente técnica. Se for interessado pela área relacionada com o comportamento humano, se tiver formações complementares e dominar uma série de conhecimentos, provavelmente irá estar apto a trabalhar na motivação do atleta. Na formação base do curso de Educação Física existe uma disciplina que se chama Psicologia do Desporto e das Actividades Físicas. Foi uma das minhas disciplinas preferidas. Um dos temas abordados ao longo do semestre em que a tive foi o da motivação. Considerando que tenho ferramentas para ajudar o atleta neste tema, sem dúvida que abordo o mesmo e ele tem influência na construção do planeamento do treino do atleta. A motivação faz parte não só da competição como também da própria sessão/processo de treino, e ela está relacionada com os resultados obtidos em ambas as situações. Obviamente que será uma mais valia se o atleta puder ter na sua rede de apoio um psicólogo (não necessariamente do desporto) ou coach para o poder auxiliar em todo o trabalho mental, se assim o quisermos chamar.

 

Como vês o desenvolvimento da preparação física no surf em Portugal e de que forma isso tem tido um impacto no treino de surf ?

Nos últimos anos tem havido o aparecimento de mais projectos, particulares e não só, que têm vindo a focar-se na melhoria da performance desportiva do surfista. Sem dúvida que isto terá um impacto positivo surf, uma vez que todos os elementos estão interligados.

Quanto mais preparados os atletas estiverem, física e mentalmente, melhor será o seu nível de surf, e com o elevar do nível de surf, as novas gerações de surfistas começam a olhar para os seus ídolos, querendo replicar os modelos de trabalho que eles adoptam, de forma a alcançarem os mesmos ou melhores resultados.

 

Tenho-me apercebido que os surfistas mais novos começam a ter já esta noção que não basta só passar horar e horas dentro de água. Eles querem ter os mesmos hábitos dos seus ídolos, e isso passa pelo treino físico e técnico, alimentação, etc. Sem dúvida que desta forma o desporto irá começar a ir para um patamar cada vez mais elevado e, quem quiser acompanhar, terá que entrar no barco.

 

 

Em relação à fase em que vivemos, que impacto teve no teu projeto e que adaptações e recursos conseguiste desenvolver?

 

Esta pandemia fez com que usasse a minha criatividade para continuar a fazer o que mais gosto: ajudar os outros. Deixei todos os acompanhamentos presenciais individuais e passei tudo para sessões individuais on-line. Isto não seria possível se não estivesse a trabalhar com atletas dedicados e que reconhecem o valor de estarem em forma. Um muito obrigado a todos eles! Resultado: quando todos regressaram ao mar, sentiram-se no seu melhor.
Além dos acompanhamentos individuais on-line, também criei um grupo privado no facebook onde orientei treinos de segunda a segunda literalmente. Foram 3 meses sem parar. Obrigado outra vez a todos os que se juntaram a mim e confiaram no meu trabalho. Tive muita gente nova a treinar comigo e o feedback foi óptimo. São estas coisas que me fazem querer continuar a apresentar sempre o melhor do meu trabalho e a evoluir enquanto pessoa.

 

De que forma “fora da água” é possível manter a resistência e forma física necessárias para uma melhor prática do surf? Que outros desportos aconselhas para complementar a prática de surf?

Seguindo uma rotina de treino físico individualizada que respeite as necessidades de cada um e complementando com outras actividades como andar, correr, nadar, escalar, dançar, andar de skate, etc. Ter o maior número de opções possíveis de movimento nunca é uma coisa má. Como disse anteriormente “mexe-te mais, com mais frequência, de mais maneiras, em mais ambientes”.

 

 

Musica: DJ Glue

 

Como podemos gerir o stress psicológico quando não podemos surfar?

Que impacto o impedimento da prática do surf e de exercício físico pode ter na nossa vida e no nosso desenvolvimento da técnica na água?

Imagino o stress que terá sido para todos os surfistas quando se viram impedidos de surfar. Acompanhei de perto os meus atletas e uma forma simples que usei para o gerir, foi certificar-me que continuavam a treinar.

O exercício físico ajuda à produção de uma hormona chamada serotonina responsável por nos fazer sentir felizes. É um neurotransmissor do nosso sistema nervoso. Actua para regular o nosso sono, apetite, temperatura do corpo, movimentos e coordena as nossas funções intelectuais fundamentais. O stress inibe os efeitos desta hormona no nosso organismo, daí a importância, e muito se falou, de continuarmos a fazer exercício físico.

Não só no confinamento, como em qualquer momento das nossas vidas, a ausência de movimento irá repercutir-se de variadas formas no nosso corpo: dores, lesões, tensões musculares, rigidez articular, etc. Isto irá impactar negativamente não só a qualidade do surf como também a qualidade do dia-a-dia de cada um de nós.

 

Para ti surfar é “como andar de bicicleta”, nunca se esquece, ou existem de facto regressões se não existir uma prática regular ou qualquer prática complementar?

 

Na minha opinião podem existir algumas regressões, mas é preciso um longo período de tempo sem praticar a modalidade. Na área do exercício costuma-se usar uma frase que diz que “os nossos músculos têm memória”. A nível fisiológico sabe-se que se eu deixar de praticar uma modalidade por um periodo de tempo, meses a até alguns anos, não perco a capacidade de, quando regressar, ter resultados iguais aos que tinha aquando da interrupção. Obviamente que qualquer pausa, ainda mais forçada, pode parecer prejudicial, mas o que fazemos durante a mesma vai influenciar o nosso regresso. Recursos como a imagética ou visualização, análise de vídeos e treino com surfskate podem ser ferramentas muito úteis para manter o skill o mais “afiado” possível.

 

 

 

Achas que consegues nomear 3 dicas, na área da preparação física, para uma melhor progressão no surf?

 

Tanto para os menos experimentes como para os mais?

Se tivesse que partilhar 3 dicas que acho essenciais ou complementares para uma boa forma física e qualidade de vida, seriam :

 

1) “Mexe-te mais, com mais frequência, de mais maneiras, em mais ambientes” o movimento é essencial à nossa vida;

2) Comer alimentos de verdade, o que pressupõe que nos dá os macronutrientes, micronutrientes, fitonutrientes, vitaminas e minerais de que precisamos – “descascar mais e desempacotar menos”;

3) Ter um sono de qualidade. Este está intimamente relacionado com a nossa saúde. Melhora a qualidade do que fazemos enquanto estamos acordados, melhora o nosso estado de humor, reduz ansiedade e promove o nosso bem-estar. Ajuda a manter a boa função do nosso sistema imuntário, a ter pensamentos claros, a estarmos atentos e preparados para qualquer decisão que tivermos que tomar (dentro e fora de água).

 

Basicamente precuparem-se em ser saudáveis, isto é, praticarem ou terem diariamente comportamentos saudáveis, pois são esses comportamentos que têm maior impacto na nossa saúde. Era óptimo se todos tivessem consciência disso.

O importante não são apenas as dietas, os treinos, os retiros, os programas de fitness…são as coisas chatas que fazemos diariamente como o sono, movimento, o que comemos, como nos relacionamos com os outros que têm impacto na nossa vida e no nosso surf!. E ainda por cima tudo isto é de graça .

 

 

Muito obrigado pela tua colaboração Duarte! Boas ondas!

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